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//EDITORAL 04 - TERROR/TERRORISMO

 

“Vejo em Heliogabalo não um doido mas um insurrecto. Primeiro contra o politeísmo romano, depois contra a monarquia romana que ele faz enrabar em si-mesmo. Mas nele as duas revoltas, as duas rebeliões misturam-se, dirigem toda a sua conduta, orientam todos os seus actos, mesmo os mais insignifi cantes, durante os quatro anos do seu reinado. A sua insurreição é sistemática e sagaz e é dirigida em primeiro lugar contra si próprio. Quando se veste de prostituta e se vende por quarenta centavos às portas das igrejas cristãs, dos templos e dos deuses romanos, não persegue apenas a satisfação de um vício: mas humilha o próprio Império Romano.” Antonin Artaud

Marcus Aurelius Antonius, Elagabalo, Heliogabalo ou então O Anarquista Coroado – como celebremente descrito por Artaud – foi imperador romano desde 218 a 222, morto aos 18 anos pela guarda Pretoriana, consta que nas latrinas do palácio Imperial, entre sangue e excrementos. Mas a sua destruição já vinha de antes, desde o início, ou pelo menos desde que se fez Imperador e ao mesmo tempo adorador de Heliogabalo ou Deus Sol Invictus, dançando à volta de uma pedra cónica, ao som de tambores e címbalos. A sua auto-destruição na pessoa mais alta do Império foi pois a destruição do próprio Império ou a sua corrosão, não a partir de dentro mas do topo. Terror e terrorismo num só, sistemático na sua anarquia, união dos sexos em oração ao deus solar ou ao seu ânus.

O terror não tem um primeiro momento, é latente, mas esse indefinido pode ser evocado – é preciso ser-se feiticeiro ou shaman para o retirar ao sono profundo que o encobre e lhe informa a invisibilidade. Esta evocação, um possuimento necessário pelo terror, é revirada e aproveitada – sobrecodificada – pela sistematização política. Este outro terror, no seguimento do Latim terrere, remete primeiramente para o estado de emergência em Roma, terror cimbricus, o pânico perante a catastrófica aproximação de guerreiros do norte da Europa e posteriormente para os Jacobinos e o seu ‘Reino de Terror’ de 1793-94, com a utilização em massa da guilhotina contra a nobreza e inimigos da revolução.

Pelo meio e compreendendo a guilhotina como uma sugestão da importância do artefacto tecnológico na produção de terror ou na sua evocação, é de referir a invenção da trebuchet como um dos mais incisivos aparatos terroristas: animais mortos, vacas, corpos em putrefacção ou infectados com peste, eram lançados pelo ar, por cima das muralhas das cidades sitiadas, para espalhar doenças e infecções, uma intervenção pelo ar, bacteriológica e certamente aterrorizadora.

Constrói-se aqui o passado histórico do terror e da sua aplicação. Mas da crueldade do antigamente ao terrorismo contemporâneo vai uma grande distância que Jarry tão bem explorou na famosa frase: “Antes de Ravachol, ravachóis existiram que explodiam com a força da própria vontade”. Usamos como exemplo para explicar esta diferença a máquina da colónia penal de Kafka: num plano, a necessária inscrição da pena na carne do criminoso, elaborada por um aparato absurdo e cruel, num agenciamento sexual que pela morte dá vida à própria lei. Num outro plano, a invisibilidade disciplinar, que sobre a superfície do humanismo e da moral civilizada procura uma pena eficaz, imposta no espaço e no tempo.

Assim no confronto entre dois mundos a crueldade absurda da máquina é substituída pelo terror da máquina invisível, a tragédia substituída pela burocracia e pela governamentalidade asséptica da população. Será também ou talvez contra esta nova forma invisível de terror que ressurge hoje um terrorismo civilizador, patentena afirmação de Hakim Bey “O Turista destrói o significado e o Terrorista destrói o Turista”, associado ao evento (explosão e à existencial tentativa de produção de significado que é tão bem retratada por A. DaSilva O. em O Atentado. Curiosamente é a própria bomba-estilhaço que se converte no testemunho arqueológico da transformação do terrorista de reaccionário em criador delirante. Por isso mesmo, este movimento talvez originado num profundo anacronismo é imediatamente recodifi cado na sua espectacularidade, colocando-se o terrorismo como um acontecimento ‘no fim da comunicação e no princípio do consumo’, como nos diz Miguel Oliveira, em O Terror Pela Idiotia, um acto espectacular que tem na idiotia uma das suas vertentes, como forma de ‘perder o controlo’.

Assim, definir terrorismo com simples sistematização do uso do terror não é fácil, quanto mais não seja porque tudo indica que é o terror que origina o terrorismo e não o contrário – o terror impõe variados terrorismos - o que em parte explica a paranóia por detrás da multiplicidade de definições existentes. Será por isso que na discussão entre os membros do Centre for Research Architecture em Universal Catastrophe se sugere que o termo Terrorismo é uma forma comodificada com determinado valor de uso e valor de troca, perante outros termos como Terramoto ou Imigração. Considera-se que Terrorismo deve ser entendido não tanto como um evento, mas como um movimento dentro de uma lógica alargada, uma paisagem de medos inerente ao contracto social e à figura do estado. Neste sentido, Paulo Tavares descreve-nos em Ataque Modelo o aparato tecnológico usado pelo Programa de Anti-Terrorismo Britânico, criado para prever e calcular os efeitos de possíveis ataques químicos, um investimento de risco e motivado pelo risco, que na operação de tecnologização do ar re-inscreve uma leitura militarizada do meio ambiente.

Trata-se portanto de entender o terrorismo dentro de um outro terror, o da possível catástrofe, mesmo que não chegue a acontecer (precisamente por isso talvez), de um modo diferente em cada país, em cada paisagem de medos e terrores a serem evocados politicamente. Os apontamentos sobre Terrorismo e Modernidade de Nuno Rodrigues abordam precisamente este culminar, explorando como a modernidade instrumentaliza e internaliza o terror, dentro do que é afinal um processo auto-imunitário.

Mas se a cidade é então o lugar por excelência do terrorismo, o lugar da sua inscrição metropolítica, - isto deve-se talvez à sua potencialidade estratégica, tal como sugerida por Virilio na introdução a Pure War: “Porque aí é possível encontrar um máximo de população e pode ser infligido um máximo de dano com um mínimo de armamento, de qualquer tipo (...) a concentração urbana ganhou à geoestratégia territorial”. Mas também por isso a paranóia do estado, ou da pessoa-de-estado voyeurista e vigilante: o terrorista pode ser qualquer um em qualquer lugar, como parece sugerir Né Barros, em duas imagens sem título, por entre uma multidão de desconhecidos num local público, um acontecimento, necessariamente suspeito, pois o terror produz o terrorista em tudo, e principalmente no outro. Mas não podemos esquecer uma outra dimensão aberta pela carga simbólica e representacional da cidade enquanto poder instituído. É ela que confere ao terrorismo um investimento sagrado no objecto, ou o seu re-encantamento, precisamente pelo acto de ‘desfacialização’, que retirando o edifício-monumento da sua ‘suspeita inconspicuidade’ revela a aura totémica que lhe investe de poder. É precisamente este jogo de poder que pensamos estar implícito nas repetições de Vasco Costa em Preâmbulo de uma Mutação Extemporânea, no espaço saturado da suburbanidade, em que o sagrado e a sua profanação se entrecruzam diariamente: podendo-se dizer que a profanação é talvez o grande acto de terror, ela é também – e por isso mesmo – o terror que assombra o terrorista contemporâneo, o terror do ordinário e do vulgar.

Mas reconhecer a profanação enquanto o mecanismo por excelência da pandemónica multitude, do fora-de-estado desterritorializado, não resolve o problema da sua eterna recodifi cação às mãos do capitalismo. Pelo contrário, como nos sugere Reza Negarestani em Triebkrieg, talvez seja de dentro do próprio estado, de uma profundidade ctónica que lhe é desconhecida, que surjem as principais máquinas de guerra terroristas, exterioridades radicais com a capacidade de deteriorar o sistema a partir de dentro. Trata-se de uma guerra conduzida a partir do trauma original, segundo Freud a separação do orgânico a partir do inorgânico, e que em Le Souffle au Coeur Miguel Carneiro parece explorar, quando nos apresenta o Sr. Pinhão a ser atacado pela cabeça de frango, seu alter-ego, num sopro putrefacto expelido precisamente das profundezas da sua identidade. Será talvez este trauma impensável, aquilo que descreve Lovecraft em The Silver Key como um “cosmos cego e sem objectivos, que tritura, do nada ao algo e do algo outra vez de volta ao nada?” A pergunta permanece em aberto, mas fica a ideia que fazer do terror um terrorismo implicará uma capacidade de invocação, aliada a uma sabedoria de cartógrafo que permita reconhecer os recantos onde se esconde.

Tal mapeamento é o que nos oferece Jonathan Saldanha, em Topologia do Terror viajando desde o terror da iniciação mágica ao terror das forças imateriais, comunicações intraduzíveis captadas por um manancial de antenas telúricas, pontos de extracção, capazes de catalisar o terror e de o tornar visível, capazes de o retirar ao abismo indiferenciado. Claro que estes pontos de extracção não são facilitados simplesmente pelo inorgânico, mas por um phylum maquínico, e assim dirá talvez Marcello Maggi que também o humano age como catalisador do terror. Esse será decerto o caso da mixagem de Tiqqun-Tripier – ‘vontade cósmica organizadora’, sendo Jeanne ela mesma já em si uma espécie de antena carregadora de mensagens do ‘Astral Boreal’, que posta em contacto com essa ‘insurreição que vem’, indica a inevitável abolição do dispositivo. E não será talvez a bizarra figura do Anjo Suíno, de Ricardo Tinoco precisamente essa arma secreta de exércitos porvir? Não será essa figura triste, reduzida à crueldade do espectáculo de variedades a última expressão do inevitável falhanço inerente à tentativa de aterrorizar? Seja como for a busca do terror é uma espécie de viagem psico-etnográfica, em busca do Heart of Darkness, do profundo-inumano, mas com perigos que não são só os do mundo da borracha e da crueldade do encontro com o ‘terceiro mundo’, mas também os da sua estetização romântica. Como indica Michael Taussig, o problema político e artístico de pensar o terror é o de “maintain that hallucinatory quality, while effectively turning it against itself ”.

Resta dizer que não nos parece que Heliogabalo inspirasse terror, da mesma forma que o cruel Mr. Kurtz de Joseph Conrad. É que em vez de estar escondido nas profundezas da selva, Heliogabalo desenterrou a idiotia das profundezas do estado, deixou-se atravessar por ela, e largou-a nos píncaros do Império.

 

Godofredo Pereira

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