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//EDITORAL 03

Godofredo Pereira

 

Sob o título “Ciência das Soluções Imaginárias”, sub-título da ‘Patafisica de Jarry e concorrente com outros subtítulos possíveis tais como “Ciência das Soluções Excepcionais” ou “Ciência das Soluções Poéticas”, a DETRITOS dá ao mundo o seu terceiro número.
Habituados às soluções óbvias, deduzidas sem esforço nem empenho, ou ao deixar que as soluções surjam assim e quando lhes convier, tal como a chuva que nos rega as plantas, somos levados a pensar que Imaginar Soluções é um esforço que nem sempre compensa, dado o risco de se estar enganado, ao que acresce o cansaço e desgaste a que um processo imaginativo nos sujeita.
Mesmo assim, e tendo o falhanço à porta, não podemos deixar de notar a relevância dos processos inventivos no desenvolvimento saudável de um certo atletismo da mente. E quem diz mente, sabe hoje em dia que da mente ao corpo não vai grande distância, isto é, que não estão propriamente separados como o queria Descartes, e que portanto este atletismo é um atletismo do todo, ou remédio santo para as mais variadas endemias. Será portanto através da constante invenção que nos vamos aqui mantendo, superando esse insustentável acto dos dias, por mais ou menos tempo, dançando com a morte, até que ela se farte e nos mande prá cova.
Raymond Rousell patenteou o vidro duplo (ver artigo de Philippe Duboy em Insi(s)tu #0.2) na preparação da viagem que fez com a sua mãe por toda a Itália. Apesar de ser a única invenção de Roussell que é utilizada (àparte os livros), essa terá sido a sua menor criação. Nas suas viagens Roussell pouco saiu da sua autocaravana (mandada construir à medida) e terá passado a maioria do seu tempo no interior, indiferente aos poentes tropicais da geografia, a lêr e escrever, isto é, a inventar.
Tal como o seu predecessor Julio Verne, ou o seu contemporâneo Jarry, Roussell era um apaixonado pela ciência – não pelas suas verdades ou postulados – mas sim pelas suas descobertas e invenções. A ciência foi aliás um dos principais temas de inspiração das vanguardas do séc. XX. Mas se a ciência não parece ter mudado muito na sua natureza – mudou mais nas suas descobertas e conquistas – o mesmo não se pode dizer talvez da relação que com ela estabelece a arte de hoje.
Muitas vezes vemos que a criação busca na ciência a solução ou uma suposta fundamentação para problemas e questões que aparentemente lhe são exteriores. Vemos que atenta ao mundo, a arte olha a ciência, mas é cada vez menos capaz de lhe acrescentar algo, de a trabalhar e apropriar para o domínio da criação. Onde está essa capacidade de apropriar os discursos da ciência na produção do novo sem se deixar submeter a eles?
É na necessidade de deturpação da meta-física científica que se constitui este número da DETRITOS: Na invenção de soluções que, mais ou menos excepcionais, mais ou menos imaginárias, constroem a nossa realidade.
Ou nas palavras de Sua Altíssima Magnifi-ciência:
“em vez de declarar a lei dos corpos que caem em direcção a um centro porque não preferir aquela da ascenção de uma unidade de vazio em direcção à periferia, o vazio considerado como uma unidade de não-densidade, hipótese muito menos arbitrária considerando aquela que postula uma unidade concrete de densidade positiva?”

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