//DESEJO EM ESTRADA
Susana Caló
“(...) A estrada impõe por natureza um pensamento que se confronta a si próprio, não no imaginário, nem na memória, mas na acção. A este devir geográfico corresponde uma restauração do vazio, do plano de criação, ou a desobjectualização do desejo. A estrada representa aqui essa suspensão ou restauração de um só plano, sem presente, nem passado, sem sujeito,
nem objecto. Pode ser comparado a um estado alargado de antecipação visionária. É o encontro
com o fora ou a restauração do em si mesmo.
A estrada não tem objecto, produz vazio, e está aqui o feito da escrita de Kerouac: devolver
às coisas a plenitude do vazio do seu plano de criação, isto é, ao verbo do criar, pura positividade sem objecto e em acto e onde reside a possibilidade do novo.
É nesta instauração de um vazio original que se dá a possibilidade de deslumbramento. (...)”
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