//O HUMANISTA
Ricardo Tinoco
“(...) Sempre que assisto à missa, numa ou outra igreja, não raro o meu olhar perde-se na
contemplação das recatadas e maternais imagens da Madona; no salão do duque, de todas
as vezes que aí sou chamado para a redacção de uma missiva ou receber instruções, a minha atenção divide-se entre as palavras do meu senhor e as telas e as tapeçarias que ostentam as figuras de deusas pagãs. Sinto, fiel Diário, que, em ambas as ocasiões, é o mesmo impulso que me guia o olhar na direcção das díspares representações: tanto me enternece a bem disfarçada e, por isso, contundente impudícia de Afrodite nascida das águas e de Leda no banho junto das roçagantes penas do cisne, quanto dos severos e humildes trajos da Virgem que de algum modo justificam a pura nudez do Menino e a natural opulência dos campos circundantes; tanto me atraem as cores de brilhos cristalinos das primeiras quanto a obscuridade telúrica da segunda. Em ambos os casos encontro um idêntico magnetismo. (...)”
______________
