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//OS DETRITOS DA VIDA E A CATAPULTA DO PROCESSO

Susana Caló

 

Detrito - do Lat. detritu; resíduo de uma substância que se desorganizou por atrito; produto de qualquer erosão, em transporte ou depositado, sendo que erosão se define consequentemente por fenómeno que resulta da actividade dos agentes da dinâmica externa que alteram o relevo terrestre.

Os detritos são imperativos à produção. Quase sempre a não-terminação quer e o desejo cria. São restos, despojos, dejectos ou resíduos de um processo com alguma organização. E no entanto, os detritos estão sempre lá, em espera residual. Co-existem com o todo o processo de produção que sacrifica a singularidade em prol da identidade do produto. E é nesta qualidade de testemunhas de um processo, desperdícios da erosão causada por um fim, que transportam vestígios de um movimento singular, ou esse vestígio do processo que reside sempre. Na não-terminação-movimento esse vestígio indefinido quer e o desejo cria.

O Merzbau [1] do Kurt Schwitters é um monumento de detritos. Catedral de Miséria Erótica, nº 5 Waldhausenstrasse, Hannover [2]. Pela altura em que Schwitters se teve de mudar para a Noruega, o trabalho já se tinha alastrado a oito divisões do estúdio, do chão ao tecto, até abrir um buraco para o andar de cima.
O Merzbau é uma fábrica progressiva de indeterminação. Os objectos são obrigados a entrar em novas relações e possibilidades de existência, e cada elemento acrescentado ou soterrado impõe pelo seu movimento o re-actualizar do estado-de-coisas. Colocados em composição uns com os outros formam uma ecologia radical.

Enquanto colector de objectos, Schwitters, é muito diferente de um coleccionador. Não é na medida de um fim, nem como peças de uma categoria específica, que os objectos são colectados, mas sim com um potencial de transformação em vista. O colector-transformador sente mais prazer na colecta e tanto mais na sua transformação do que na colecção constituída, só acrescentada. O Merzbau é uma catedral de acções (um sagrado sem deuses), os objectos relacionam-se enquanto verbo, enquanto aquilo que produzem e não como produto constituído.
Há contudo um elemento afectivo que é importante aqui e que é indissociável do projecto de des-subjectivação do objecto. A qualidade de Merzbau enquanto banco de detritos refere-se menos à composição formal de objectos potencialmente interessantes, do que a uma composição de objectos de onde se extraem afectos [3]. Uma presença profunda de vida em tudo, em que deixam de haver objectos e sujeitos, mas acções e afectos.
As grutas formadas pela contínua justaposição destes objectos eram consagradas a familiares e amigos dos quais Schwitters retinha coisas (como uma ponta de cigarro, um bocado de um atacador de sapato, mobília velha, uma madeixa de cabelo, entre outros), mas este exercício de intimidade e recuperação dos objectos informa um projecto que não acaba no biográfico, mas na sua renovação ou re-singularização.

A vontade de fazer, de viver a vida segundo os seus próprios termos reside na capacidade de destruir o lugar do transcendente e não o substituir por mais nada. Vai para abate. O detrito não responde que não a si mesmo, não fica aquém de nada que aquém de si e em si mesmo.
Praticar a vida significa remetê-la para os seus próprios termos de imanência. Porque ela está em todo o lado e o homem Schwitters sente a sua presença em todas as coisas. A vida não tem medo da morte, ela quer, quer ser vivida, e não sobreviver.
E é no encontro entre este homem que sabe da vontade da vida com o detrito que contém em si um traço singular que persiste, que se dá o processo de criação. O desejo de criar, que não é senão o desejo em si mesmo, re-introduz o detrito no processo criativo.

O homem criador é ao mesmo tempo natureza e história, animal e homem. Em Coyote: I like America and America likes me (1974) o sujeito individual Joseph Beuys dá lugar ao Beuys-Coiote. A destruição da dialéctica é um mal menor. As coisas só são boas ou más, interiores ou exteriores, passadas ou presentes quando há um sujeito que falha em ver que é parte do círculo e não o seu centro. E como que desdobrando-se para fora de si, este sujeito quebrado, que agora se vê parte, e não centro, sente o ’Afinal, era isto!’ de Deleuze e Guattari [4].
A obra mede-se pela capacidade de criação dos critérios da sua avaliação. Não pode haver subalternidade na obra que não a si mesma. Por isso é que as melhores máquinas funcionam avariadas. A criação só tem um fim, que é o processo, e este só existe na medida de uma produção, em que o produzir é inserido no produto e o produto no produzir.
O novo advém de um projecto de superação de si próprio e em si mesmo, num movimento vital de continuidade e simultaneamente ruptura que caracteriza a vida.
É absolutamente necessário fazer com o que se tem. Praticar a vida obriga a uma economia de meios radical. O colector-transformador é ao mesmo tempo recuperador e produtor de energia. E nesse esforço tudo é Vivido e não re-vivido. Da mesma maneira, é na fabulação do episódio da queda do avião na Crimeia e salvação pelos tártaros nómadas que o Beuys-singular vive plenamente [5]. Na função fabuladora do mito a auto-biografia é des-subjectivada, e na invenção os acidentes da vida recuperados para o plano singular da criação.

O vestígio do processo que reside sempre é o indefinido que se dissipa na tentativa de confrontação com a sua origem. É o singular do encontro entre o branco do leite entornado - com a madeira escura da mesa na dacha. É aquilo que é nos entre-tempos, nos entre-coisas. É o que Tarkovsky não filma para poder estar sempre lá [6]. É é a qualidade da presença ocultada, mas não menos presente, das camadas cobertas do Merzbau. É a memória daquilo que não foi vivido, sem cessar de existir, do que foi e que está para vir, como expressão de liberdade.
O poder de afectar dos objectos advém deste vestígio do processo que encerram e que é nosso, na medida em que nos deixamos afectar por ele instaurando uma praxis. É o caso de ser capaz de esquecer para fundar as coisas nelas próprias ou de construir uma memória de todas as possibilidades inventivas da existência.

A Catapulta do processo. A vontade necessária de Fazer toma lugar sob a forma de um catapultar do processo que ataca de assalto as propriedades transformativas dos materiais.
O motor só pode ser um, o desejo incondicional des-investido, aquele que constrói sob a condição de nunca se fixar.
A produção, essa, não é alienígena à sustentabilidade, mas move-se livremente no campo da invenção das possibilidades que cria e essa é a sua verdadeira economia de meios. Fazer com o que se tem é o mesmo que fazer inventando o que se tem. O desperdício da vida retomado numa actividade radical de invenção.
E esses são os detritos, aqueles que fomos buscar à marginalidade do lado do passeio, mas que afinal informavam mais o percurso, ao ponto de este poder ser sempre outro, sempre inventado. Não há outra coisa que não detritos, acções, pois tudo é parte e não centro, assim como também o ímpeto da obra não deve nada a ninguém que não a si mesmo.
Instaurar a praxis da catapulta é a vontade da revista Detritos. Eliminar o definido do alvo, operar o lançamento em si mesmo, projectar desvios angulares à orbita da sabedoria e inventar a crítica.
Catapultar o processo, catapultar a vida.

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NOTAS:

[1] Merzbau é o nome com que Schwitters designou a construção que ocupava o estúdio na sua própria casa e cuja coluna central tinha o nome original de Säule des erotischen Elends (A Catedral de Miséria Erótica, 1920). A palavra Merz, que Schwitters viria a usar para designar todo o seu trabalho, surgiu num trabalho de collage em que num papel do Commerzbank alemão ficou destacada a palavra MERZ. Em alemão a palavra tem várias conotações, entre outros, alude a Commerz que significa troca ou comércio; ao acto de apagar (aus-merzen); coração (Herz); e ao brotar da natureza na Primavera (märzen).
[2] Em 1937 Schwitters foi obrigado a mudar-se para a Noruega deixando para trás o Merzbau original (1923-36). Nem o primeiro, nem o segundo Merzbau começado na Noruega, sobreviveram. O primeiro foi destruído por um raid aéreo dos Aliados e o segundo por um incêndio. Em 1940, Schwitters terá de emigrar novamente, desta vez para Inglaterra, onde eventualmente começa outra construção desta vez num celeiro, até à data da sua morte em 1945.
[3] Sobre os afectos como aquilo que excede o vivido ver DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Félix, «Percepto, Afecto e Conceito», in O que é a Filosofia? (1991) , Lisboa, Editorial Presença, 1992.
[4] Cf. DELEUZE, Gilles, e GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia (1971), Lisboa, Assírio & Alvim, -, p.22.
[5] Cf. TISDALL, Caroline, Joseph Beuys, London, Thames & Hudson, 1979, p.113 (tradução do autor): “biografia significa mais do que uma coisa pessoal. Significa a inter-relação de todos os processos e não a divisão da vida em compartimentos separados: uma totalidade. Por biografia entendo o desenvolvimento de todas as coisas. A minha história pessoal só é de interesse na medida em que eu tentei usar a minha vida e história como ferramenta.”
Ver também biografia inventada Lebenslauf/Werklauf, publicada pela primeira vez em 1964.
[6] Cf. TARKOVSKY, Andrei, Sculping in Time (1986), London, Texas Press, 2005, p.29 (tradução do autor): “normalmente a poesia da memória é destruída pela confrontação com a sua origem.”


 

CALÓ, Susana, “Os Detritos da Vida e a Catapulta do Processo”, Detritos. Revista de Arte e Ensaio, n.1, Maio 2008, pp.6-9.


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