//FILIAÇÃO E TRAIÇÃO NO DELÍRIO DE D. LOPE DE AGUIRRE
Miguel Oliveira
Sobre a filiação e a traição no delírio de Aguirre em Aguirre, der Zorn Gottes, filme escrito, produzido e realizado por Werner Herzog em 1972, com elementos da “imagem do pensamento” de Gilles Deleuze.
“Nas grandes descobertas, nas grandes expedições, não há apenas incerteza acerca daquilo que vai ser descoberto, a conquista de um desconhecido, mas a invenção de uma linha de fuga, e a potência da traição: ser o único traidor, e traidor de todos – Aguirre ou a cólera de Deus”[1].
O realizador alemão Werner Herzog põe em cena alguns personagens da descoberta da amazónia pelo ocidente hispânico, como Gonçalo Pizarro ou Gaspar de Carvajal, frade e cronista das primeiras investidas do referido Pizarro e Francisco de Orellana de 1541 e 1542. A expedição que serve como fundo (grund) ou abismo (ab grund) histórico para o filme “Aguirre ou a cólera de Deus” (1972) é a de Pedro de Ursúa e Lope de Aguirre de 1560 a 1561[2]. A expedição saiu do Peru em Setembro de 1560, sob o comando de Pedro de Ursúa. Lope de Aguirre assassina Pedro de Ursúa e os seus partidários, e proclama Fernado Gusmán, “Princípe da Terra Firme e Peru e Governador do Chile”, à revelia da Coroa Espanhola. Em 1961 chega à foz do Amazonas e ao Atlântico, e sobe para norte até à ilha de Trindade no litoral venezuelano. Este é o arquivo ou o a-priori histórico, funcionando Aguirre, como ponta solta, agent provocateur, foco de desterritorialização (Deleuze) ou de desenraizamento (Heidegger) com os quais Herzog monta o filme. Esta indicação já diz bastante sobre o filme e a sua (in) consistência, Herzog não poderia ser fiel à história “verdadeira”, se o fosse não teria o filme (potência do falso). Veremos adiante este aparente e superficial paradoxo.
Werner Herzog não pretende realizar um filme histórico, “um desenrolar de acontecimentos e retratos de personagens”, “nem uma verdade ordinária como a do cinema directo” mas “uma forma intensificada de verdade”. Numa frase enigmática afirma que o filme é “sobre o que há por trás das paisagens, dos rostos, das situações, das palavras”[3]. Na verdade, ou no processo de fabrico da verdade, precisamente, pela “mais alta potência do falso”, tanto o rosto, como a selva amazónica, como as situações e as palavras são parte de uma “forma-estado” que oprime e condiciona a experiência do novo-mundo, o sempre-novo da experiência, também ele formado por “formas-estado”, apesar de desconhecidas, multiplicadas, simples pontos ou incidentes ainda por cartografar, ou mais ainda, por interpretar ou significar. A forma-estado e por analogia as formas-estado, justifica a empresa de conquista militar, a ganância mercantil, e o processo de homogeneização evangélica. Que nunca é homogénea, vai no entanto pelo caminho da menor diferença, e o que interessa aqui é o menor. Coroar Guzman é fazer dele algo menor que o Rei de Espanha, ou, o delírio ou o pensamento é algo de menor face à razão ou à consciência, ou ainda, o dispositivo cinematográfico é algo menor relativamente à estratificação da História. Não é um simples procedimento analógico, que respeitaria as devidas proporções, mas uma fuga ou uma variação contínua. O que há por trás é a experiência cruel da Amazónia por um dispositivo cinematográfico que falhe (naturalmente) expressivamente é um novo agenciamento, “onde muitos elementos foram imaginados ou ‘deslocados’ do seu contexto”[4]. Este novo agenciamento opõe a traição à filiação, o delírio à história, a deriva ao objectivo da expedição, enunciado por Pizarro, o El Dorado. Oposições simples, relações complexas.
A expedição é composta por Pedro de Ursúa (Ruy Guerra) e Lope de Aguirre (Klaus Kinski), respectivamente comandante e segundo comandante, Fernando Gusmán, o representante da Casa Real de Espanha. Com Pedro de Ursúa vai a mulher Inez e com Lope de Aguirre a filha Flores. O cronista e o representante da Igreja é Gaspar de Carvajal. O negro Okello: “Era escravo de Pizarro. Ele cedeu-me à expedição. Os índios, dizem eles, ficam assustados com os cavalos, mas ainda mais com os homens negros”; um príncipe Inca, que tem um raro monólogo “ideológico”: “O meu povo conheceu tremores de terra e epidemias mas os espanhóis ainda fizeram pior. Deram-me o nome de Baltazar, mas o meu verdadeiro nome é Rumo Dimac. Rumo Dimac significa ‘aquele que fala’. Era um príncipe e o meu povo baixava os olhos perante o seu príncipe. E eu baixava os meus olhos perante o sol. Fomos quase todos presos e eu não posso fazer nada contra isso. Estou desolado (...) porque não há esperança de sair desta selva”[5]. A sua função é essencialmente a de tradução das línguas indígenas, “falar”. A tradução “ideológica” mantém uma certa analogia de proporcionalidade entre o Império Inca e o Espanhol e parece querer significar se um caiu o outro cairá. A submissão do príncipe Inca é a mesma do falar à tradução. Mantemos este tipo de analogia como razão do estado.
É importante recomeçar a partir do seguinte ponto, a traição de Aguirre. Desde o princípio vemos Aguirre como um guerreiro que “está na situação de trair tudo, inclusive a função militar, ou de nada compreender”[6], mais ligado ao dispositivo militar e alheio a toda a relação com a coroa espanhola, ou como elemento secundário nessa ligação. Esse elemento secundário é tão expressivo como perigoso, o que Pedro de Ursua rapidamente, ou desde logo, percebe. Inexpressivo só a muito custo age distanciando-se da sua “natureza indiferente” e forçado a agir, para repor a ordem e enunciar a lei. Werner Herzog parte então de uma personagem secundária, inquieta, insatisfeita, ambiciosa, alguém cuja vontade é alimentada por ouro e não por poder e glória, formas abstractas. Aguirre lidera a revolta contra Pedro de Ursua e faz Imperador daquele Mundo Novo, Guzman, alguém que mantém vestígios de uma organização imperial e capaz de remeter esta quem o mencione. Para reforçar esta ligação à coroa de Espanha, Ursua que tinha sido ferido na revolta, vive silencioso nutrido pelos cuidados da mulher Inez, e após a morte do Imperador Guzman assassinado por um tripulante faminto, Ursua é morto, enforcado pelo imediato de Aguirre. Inez, a mulher de Pedro de Ursua embrenha-se na floresta durante um ataque de indígenas. Aguirre, o traidor, é sempre secundário.
É difícil imaginar um Deus colérico ante a perdição de Aguirre, e seria mais fácil imaginar um Deus indiferente, ou uma natureza indiferente, se seguirmos uma linha espinosista (deus sive natura). Mas essa natureza indiferente ou esse fundo de indiferença, cria o delírio de Aguirre, podemos dizer que esse deserto é um espaço liso e indiferenciado. Mas aqui Deus é o contrario da natureza, é como a coroa espanhola, ausente, filiação ausente, sempre ausente, primeiro com Gonçalo Pizarro a ausência da coroa espanhola, depois com Pedro de Ursua, a ausência de Pizarro, depois com o Imperador, Fernando de Guzman, o representante da coroa, depois do assassínio de Guzman. Temos finalmente Aguirre, só e delirante. O ocupante sem o lugar, Aguirre, delira, isto é, desliza pelo meio do rio, entre as margens hostis e impenetráveis da selva amazónica.
A expedição é narrada pelo monge Gaspar Carvajal, e tem a forma de um diário, que introduz as situações, pelo menos até um dos famintos tripulantes beber o frasco de tinta do monge, contado pelo próprio na entrada de 22 de Fevereiro de 1551. Aí, quando o frade já não pode (d)escrever, (re)começa o delírio do traidor Lope de Aguirre: “Quando chegarmos ao mar, construiremos um barco maior, navegaremos para norte, conquistaremos Trinidade à coroa de Espanha... Depois seguiremos a nossa viagem... e conquistaremos o México a Cortez... Que grande traição será. Toda a nova Espanha será nossa. Colocaremos a história em cena como outros fazem com as peças de teatro. Eu sou a cólera de Deus. Desposarei a minha própria filha, fundarei a mais pura dinastia conhecida pelos homens; e juntos reinaremos sobre a totalidade deste continente. Correrá bem. Eu sou a cólera, a cólera de Deus. Quem mais está comigo?”[7]. Ninguém, uns macacos, a sempre indiferente natureza.
A liberdade, isto é, o delírio. O delírio não é o caos, referimo-nos à noção de um empirista, ou seja indiferença, o delírio não é indiferença, delirar é trair uma ordem pressuposta, simplesmente para experimentar o novo, o meio. Mas é justamente o pensamento complexo do delírio com as suas ligações automáticas que dá a impressão de poderem ser estendidas ao infinito, (a variação contínua) com ciclos de repetição de critica, de interrupção e impedimentos (de sopros e gaguejos, etc...), que é necessário pensar. Como delirar de um modo racional, ou talvez melhor, porque a razão é unívoca (“(...) não há uma bifurcação da razão, é esta que não deixa de se bifurcar (...)”[8]), como fazer a razão delirar, ou melhor, como não delirar? O primeiro passo é um procedimento analógico Velho Mundo/ Novo Mundo, etc..., o segundo é trair, a traição. Trair o rei, trair a hierarquia, trair os subordinados, trair a missão, trair a família, trair os princípios da sua educação aristocrata para a guerra. Fluxo de guerra absoluta e sem princípios. A experiência da história dá-se então de duas maneiras a partir do diário de Carvajal, que é necessário interpretar e a partir do delírio de Aguirre, que é ele-mesmo experiência da história. Experiência falhada ou que tem de falhar, pois “é impossível ser-lhe fiel”.
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NOTAS:
[1] Gilles DELEUZE e Claire PARNET, Diálogos (1977), Lisboa, Relógio d’Água, 2004, p.56.
[2]Trata-se aqui de um “pensamento-em-marcha” ou de uma “variação contínua”, isto é, da perda de fundamento (fundo, raízes).
[3] Werner HERZOG in L’Avant-Scène du Cinema, nº 210, Junho de 1978, p.3.
[4] Werner HERZOG in L’Avant-Scène du Cinema, nº 210, Junho de 1978, pp. 52 e 54.
[5] L’Avant-Scène du Cinema, nº 210, Junho de 1978, p.14.
[6] Gilles DELEUZE e Félix GUATTARI, Mille Plateaux, Paris, Minuit, 1980, p. 438.
[7] L’Avant-Scène du Cinema, nº 210, Junho de 1978, pp. 52 e 54
[6] Gilles DELEUZE, O mistério de Ariana. Cinco textos e uma entrevista de Gilles Deleuze, Lisboa, Vega, 1996, p. 90.
OLIVEIRA, Miguel, “O que é um traidor? Filiação e Traição no delírio de D. Lope de Aguirre”, Detritos. Criações Singulares, n.1, Maio 2008, pp.26-28.
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