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//RINGING LIGHT

Michael Vorfeld

 

Como músico, percussionista, e artista visual, trabalho principalmente em instalações e performances com luz, combinando frequentemente as minhas actividades sonoras e de luz, e colaborando, ainda, com outros músicos, artistas e bailarinos.

Os trabalhos onde combino som e luz são geralmente contextuais, interagindo com o espaço e com a arquitectura do mesmo. De certo modo, estas peças inserem-se numa tradição de longa data conhecida pela designação em francês “Son et Lumiére”.

As oportunidades técnicas para a utilização da luz alteraram-se radicalmente com a invenção, e os desenvolvimentos subsequentes, da lâmpada eléctrica. Convém aqui mencionar dois pioneiros do teatro, o inglês Edward Gordon Craig e o suíço Adolphe Appia, que tentaram libertar a luz do seu papel passivo e reduzido de tornar apenas as coisas visíveis. Ambos trabalharam, no início do século XX, em modos de utilizar a luz como um método de expressão performativo equivalente a qualquer outro, como a música, a actuação ou a dança.

Quando o rádio se tornou popular, o artista da Bauhaus Moholy Nagy escreveu sobre a sua visão futurista de receber não apenas canais sonoros pelo rádio mas também visuais – canais que controlariam e alterariam as fontes de luz instaladas nas salas de estar.

Ainda tendo dúvidas se a luz pode ser percepcionada como um meio de expressão equivalente à música, actuei, até à data, duas vezes exclusivamente com luz, sem qualquer intervenção de outro meio. Em ambas, a generalidade do público estava obviamente insatisfeita, esforçando-se para manter a concentração nas situações de luz variáveis apresentadas.

A percepção visual do espaço e da arquitectura depende basicamente da luz. Ao mesmo tempo, a luz precisa do espaço físico para ser percepcionada. A luz, em si mesma, não é visível, mas torna as coisas visíveis. O que vemos é a própria fonte e o seu efeito.

Tanto o som como a música estão muito relacionados com o espaço, não só no sentido arquitectónico, mas também na relação com o seu ambiente e o seu carácter.

Em 1989 fui convidado para actuar com luz, juntamente com o gira-disquista Claus Van Bebber no “AVE Festival”, em Arnhem, na Holanda. O evento ocorreu numa discoteca, o que se revelou ser um excelente espaço para performances audiovisuais. Estou convencido que o sucesso da nossa actuação se deveu parcialmente à noção básica da discoteca como um local onde música é tocada em combinação com um espectáculo de luzes.

Anos mais tarde, realizei uma performance de luz e som, com o oboísta Robbie Hunsinger, num antigo cinema, num festival em Nova Paka, uma pequena cidade na República Checa. Inicialmente pensei que um cinema seria um bom espaço para actuar com luz. Mas no local apercebi-me que uma sala de cinema está repleta de assentos e que é muito difícil actuar num espaço maioritariamente ocupado pelo público de frente para um ecrã bidimensional.

 

O meu trabalho com som e luz está sempre muito relacionado com o espaço. Proximidade e distância, primeiro plano e plano de fundo, aqui e ali são temas básicos importantes. Mas enquanto a música pode ser percepcionada a partir de várias direcções, a percepção visual está sempre relacionada com o ponto de vista, tendo o espectador de, obrigatoriamente, focar a sua atenção numa certa direcção.

Num dado espaço, e em relação a este, disponho a minha maquinaria de luz, que inclui diferentes fontes tais como lâmpadas incandescentes, fluorescentes, néons, projectores e afins, mas também as extensões de corrente, os interruptores e todo o restante aparato eléctrico – tudo faz parte da instalação. Posicionar, alterar, mover e direccionar a luz é sempre mostrado como uma parte visível e inteligível da performance.

A ideia de utilizar vários equipamentos de luz é muito influenciada pelo hábito de utilizar um conjunto de instrumentos. Tal como os meus instrumentos de percussão e cordas não são música em si mesmo, o meu equipamento de luz também não é uma peça artística em si mesmo. Os equipamentos instrumentais e de luz oferecem-me a possibilidade de criar música e arte em contextos em mutação. .


 

Parte deste método de trabalho é baseado na ideia de tocar sempre os mesmos instrumentos e utilizar sempre a mesma gama de luzes, mas criar peças diferentes de acordo com o conceito, a situação, o espaço, o lugar e, claro, os músicos, os artistas ou os bailarinos com quem se colabora.

O trabalho com luz permite-me criar situações definidas e estáticas, mas também me oferece a possibilidade de variações rápidas e radicais. Tal tem definitivamente uma grande influência no meu trabalho musical. Variações súbitas, tal como quem liga um interruptor, a imersão numa espécie de personagem sonora sem qualquer introdução, ou a criação de uma aparência estática são todos aspectos composicionais que surgem com frequência na minha música.

Numa das minhas mais recentes peças para som e luz trabalho com sons electroacústicos, gerados por diferentes lâmpadas e aparelhos eléctricos. Pela utilização de vários tipos de microfones e pick-ups, é possível transformar directamente em som as variações na intensidade e no ritmo de tremulação e de flutuação da luz.

 

Como percussionista, a produção de som está sempre relacionada com o movimento. Mesmo a produção de um simples som contínuo necessita da minha presença física. Por outro lado, o controlo da peça acima citada é completamente diferente. Claro que estou a mover potenciómetros e a alterar as coisas pontualmente, mas a maquinaria que produz o som e a luz está a correr sozinha.

Nunca me interessei muito pela utilização de iluminação de palco na forma convencional, onde as fontes de luz e os dispositivos técnicos para as controlar se encontram escondidos. De certo modo parece-me uma situação semelhante à dos músicos de ópera serem colocados no fosso da orquestra. Tais métodos de apresentação estão ultrapassados nesta época de novos média. A omnipresença de média, nomeadamente da imagem digital, pede um uso ainda mais distintivo de todos os métodos de expressão como uma resposta e uma afirmação clara da performance ao vivo.

Estudei artes visuais com um ênfase em fotografia, no início dos anos 80, um período em que a fotografia enquanto arte era algo ainda novo – relembro-me quando esta foi apresentada na exposição internacional “documenta 6” em Kassel, na Alemanha, em 1977, ainda era um escândalo colocar a fotografia ao mesmo nível artístico que a pintura e a escultura.

Um dos principais aspectos da fotografia é o uso de luz e a criação com luz. Este foi decididamente um ponto de partida para o meu interesse em trabalhar com esse elemento. Mas a movimentação a partir de um meio bidimensional e estático no tempo em direcção a trabalhos de performance em tempo real e em espaços tridimensionais foi maioritariamente influenciada pelas minhas actividades musicais.

Aparte disso, o processo de trabalhar com fotografia é, tal como na maioria das restantes práticas visuais, solitário, enquanto que o meu trabalho musical é realizado de forma colaborativa com grupos e ensembles. Claro que também gosto de realizar projectos a solo, mas não quero perder a possibilidade de cooperar com outros músicos e artistas de áreas e géneros diferentes.

 

 

Sobre os visuais

As imagens apresentadas nestas páginas pretendem visualizar algumas ideias básicas das minhas performances com luz e som. Tal como uma pauta gráfica, apresentam, ao intérprete, instruções sobre o uso de instrumentos de percussão e uma selecção de equipamentos de luz. Mesmo tendo uma estrutura aberta contêm informação sobre o carácter da luz e do som a ser explorado bem como a sua relação com o espaço.

Estes gráficos são parcialmente realizados através de técnicas fotográficas, enquanto que outras partes são desenhadas à mão. Mas mesmo nas partes realizadas manualmente gosto de evitar uma marca pessoal – talvez devido ao facto do meu trabalho como performer já ter suficiente cunho individual.

Sobre o título

O título, em inglês Ringing Light, foi inspirado pela citação „...and the sun is like a bell ringing light“ proferida pelo matemático suíço Leonhard Euler, responsável por vários trabalhos fundamentais sobre a teoria ondulatória da luz. Foi também o primeiro cientísta que se interrogou sobre o éter da luz.

 

Uma realização musical dos gráficos foi gravada em Abril de 2008 por Michael Vorfeld e editado pela ESQUILO (www.esquilo-records.com) em Dezembro de 2008.

tradução de Luis Jacinto

[english version]

 

VORFELD, Michael, “Ringing light.”, trad. Luis Jacinto, Detritos. Criações Singulares, n.1, Maio 2008, pp.53-57.


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