//A ARQUITECTURA DAS MÁQUINAS DE GUERRA
Godofredo Pereira
I Máquina de habitar
“Machine d’habiter” dizia Le Corbusier.
A segunda revolução industrial tomava finalmente de assalto as consciências da intelligentsia arquitectónica numa proposta revolucionária. Foi isso a modernidade – uma crença no progresso científico como capacidade de transformação de um mundo injusto e impuro numa sociedade equilibrada e sã. A máquina era o grande operador desta transformação – estandardização, racionalização, compreensão. O que eram máquinas para Corbusier? Constructos tecnológicos, instrumentos de concretização/realização da ideia na sua pureza essencialista. Daí também o funcionalismo. É preciso que as casas se tornem em máquinas para que possam funcionar. É preciso que a sociedade se transforme numa Grande Máquina para que possa funcionar.
Mas mais que isso edifícios são máquinas não só no sentido de funcionarem como máquinas, mas no sentido de produzirem como máquinas. Um sistema de associações de elementos diversos, que encadeados reagem e produzem algo. A máquina será então determinada pelas suas produções, e a casa enquanto máquina determinada pelo seu produzir de um espaço para habitar. Evitemos de qualquer forma (e porque já longamente discutidas) as óbvias limitações deste honesto mas inocente raciocínio.
II Edifícios-Máquina
Anos 60 e Reyner Banham: Edifícios são máquinas porque são feitos de máquinas. No seu ensaio “The Architecture of Well-Tempered Environment” noções de espaço e forma são criticadas como desejos idealistas desligados da realidade da construção arquitectónica. Uma construção tecnológica que era escondida por detrás das paredes, recusada na linguagem purista do edifício. Era necessário que a arquitectura expressasse a sua natureza tecnológica e que superasse os vícios idealistas nomeadamente as noção de espaço e contexto como elementos fundadores da disciplina arquitectónica – resultantes num repetitivo e acrítico jogo formalista desligado da realidade tecnológica da cultura e civilização urbana ocidental.
Daí resulta uma arquitectura mais objectual que espacial, uma arquitectura mais ligada às máquinas tecnológicas do que à máquina produtiva.
Será talvez por isso que o high-tech nunca se soube comportar à mesa dos que não têm a necessidade do high, nem meios para o pagar...
A estética da máquina é a sua anestesia produtiva.
Atracada ao edifício-máquina e a esta objectivação da arquitectura surge a arquitectura da máquina inteligente, uma coisa sempre-nova cuja única inteligência é a de se proteger a si mesma do desconhecido.
Se arquitectura ainda é criar, então a arquitectura inteligente representa a sua morte anunciada em dupla sentença de redução à circunstância diária ou à circunstância programada. Diz-nos Robert McCarter: “Como Marx previra, inventar tornou-se num ramo de negócio determinado pelos requerimentos da produção e do consumo. A tecnologia contemporânea é essencialmente vazia desse risco inerente a qualquer acto verdadeiramente criativo” [1]. Uma arquitectura para o individuo dentro de uma lógica de massas.
Já dizia Souto de Moura “ Inventaram a arquitectura inteligente – como se o Partenon fosse estúpido...” [2]
A arquitectura da máquina inteligente redu-la ao que é tido como inteligente: utilidade, adaptabilidade, pragmatismo, lógica, economia. Produz uma arquitectura condenada a ser simpática e dialogante ao mesmo tempo que anuncia a vitória da mentalidade tecnocrática que busca no estabelecimento do mal menor um patamar de igualdade, num imbecil nivelamento pelo meio.
Os edifícios podem ser vistos como máquinas, claro. Mas uma máquina é o que produz algo. Máquinas não têm de parecer máquinas nem de se prender a um romantismo da idade industrial, transformada em objecto polido e de consumo imediato (limpa da sujeira social que a suportava na altura).
III Máquinas de Guerra
Somos obrigados a retornar a Le Corbusier. O edifício enquanto máquina. Mas máquina de habitar não chega – mesmo se nos referimos a uma casa. A função não pode esgotar (e não o faz) o sentido da máquina. Ou por outras palavras a máquina não é algo que cumpre uma simples função. Se assim for deixa de ser máquina e passa a ser apenas um instrumento.
“Máquina de habitar”, “máquina de viver”, “máquina de trabalhar”. O único “de” que se admite à máquina é o “de guerra”. O único funcionalismo possível é o da produção de novas funções. A arquitectura tem como fim a produção de máquinas na medida em que produz processo. É um processo de produção territorializante. Aliás a própria arquitectura é máquina. Daí também as suas manias e paranóias particulares: tendência narcísica; delírios de poder; excessivo controlo da produção; filiação historicista...Claro que a máquina arquitectónica não é necessariamente uma máquina de guerra... mas devia.
Acima de tudo o que torna a arquitectura numa máquina guerreira é a sua capacidade para a produção de uma máquina traidora, que despreze a máquina que a criou. Uma máquina que Viva.
A máquina de habitar de Corbusier revela assim uma arquitectura incompleta, que ainda não soube ser máquina, ainda presa à oposição entre o homem e a natureza, que vê a técnica como instrumento. Uma arquitectura presa à sua função. Não diria que se deve eliminar a função. Pelo contrário, a função é essencial para “financiar” o processo criativo. Mas no crepúsculo é o movimento criativo que retorna. A função, essa morre.
IV Arquitectura Guerreira
As Máquinas de Guerra são máquinas nomádicas, em permanente movimento, por oposição às máquinas sedentárias que visam aplacar o movimento – estas são máquinas-travão. Mas isso não quer dizer que a arquitectura se deva transformar na concepção e planeamento de tendas, bolhas efémeras, ou de sistemas leves e transportáveis. O nómada não é aquele que se move fisicamente (necessariamente), mas o que se move sem necessitar de sair do sítio. Trata-se aqui de um outro movimento que não o físico – o movimento da criação, do criar, do novo (que não deve ser confundido com a novidade que resulta de uma simplista oposição ao velho). Uma máquina de guerra é uma máquina de destruição criativa, uma máquina afirmativa. Um processo em que o que é criado serve para alimentar o processo criativo e não para ser adorado ou idolatrado. A afirmatividade da criação impõe um potencial àquilo que é criado para ser reinserido num processo produtivo de nova criação. A criação implica a morte, e o ressurgimento não do que morre, mas do seu a-morrer.
Em primeiro lugar a máquina de guerra é ao mesmo tempo política e criação. É uma máquina artística no seu sentido último. Em segundo lugar a máquina de guerra deambula sempre por uma pobreza que procura, impõe sempre uma certa economia de meios. Não que seja ascética – não é resultado de um pecado – mas busca na pobreza um exterior da máquina de controlo. Em terceiro lugar a máquina de guerra opera a partir de um entre, ou de uma marginalidade e produz mais entres e marginalidades.
A máquina de guerra tem sempre algo de inútil e absurdo (a escadaria contra a parede no Museu Judaico, o murete que envolve o plátano na Quinta da Conceição de Fernando Távora) mas é essa estratégia que lhe permite produzir outras máquinas, que lhe permite ser afirmativa e ao mesmo tempo capaz de se reinventar.
Se tanto a máquina de guerra nomádica como a máquina sedentária trabalham os mesmo materiais – ambas relacionam pontos e linhas – para a máquina sedentária o trajecto é determinado por um ponto de chegada (ou de origem) enquanto que para a máquina de guerra o ponto é sempre um local de passagem determinado por um percorrer que o deixará para trás.
A função percorrente dos espaços de transição na arquitectura de Siza Vieira.
Além do mais, dizer que a arquitectura encerra em si um potencial guerreiro não significa simplesmente a sua apropriação pelos instrumentos de poder, ou pela sua necessidade de resposta a funções outras esbatidas hoje na paz podre do capital.
A arquitectura nunca deixou de ser guerreira porque a sua guerra é a da criação. (Serão por vezes os arquitectos que deixam de lutar.) Há portanto que recuperar a atitude guerreira, mas é urgente fazê-lo sem cair no infantilismo de uma radicalidade comercial. Como diz Pedro Bandeira: “A radicalidade é cada vez menos um espaço de tensão e incerteza e cada vez mais um espaço confortável – toda a radicalidade será reconhecida, valorizada como território de diferenças na condição da sua comunicabilidade, até existir em todos nós não como facto mas como a sua representação” [3].
Zvi Hecker desenhou algumas das máquinas mais guerreiras que a arquitectura já viu. Mas para grande espanto de Peter Cook a sua preocupação ao ir viver para a Alemanha era a deaprender a desenhar caixilhos.
A questão coloca-se deste modo: para que precisa a arquitectura de constantemente falar de máquinas? A resposta: para nada.
Chegamos a uma única conclusão possível: a de que paradoxalmente é necessário que a arquitectura deixe de se preocupar com ser máquina para que finalmente se possa tornar numa. Até lá permanecerá amarrada a uma lógica instrumental que se vai alternando entre um funcionalismo abafador ou uma estetização superficial.
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NOTAS:
[1] McCARTER, Robert, «Building; Machines», in R. McCarter (Ed.), 1987, Pamphlet Architecture 12, New York, Princeton Architectural Press, p.11
[2] SOUTO DE MOURA, Eduardo, in http://arqsite.blogspot.com/2007/12/entrevista-eduardo-souto-de-moura.html
[3] BANDEIRA, Pedro, «Radicalidade é isto? Mas é óptimo! porque é que não nos tinham dito?», Jornal dos Arquitectos 226, Janeiro-Março 2007, p.46.
PEREIRA, Godofredo, “A Arquitectura das Máquinas de Guerra”, Detritos. Criações Singulares, n.1, Maio 2008, pp.22-25.
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